“Por último, ela imaginou como sua irmãzinha iria, no futuro, ser uma mulher crescida; e como ela manteria, através de todos os anos, o simples e amável coração de sua infância; e como ela reuniria suas outras crianças, e faria os olhos deles brilharem e ansiarem com esse conto tão curioso, talvez até sonharem com o País das Maravilhas de muito tempo atrás; e como ela se sentiria com todas as suas simples tristezas, e encontraria prazer em todas as suas simples alegrias, lembrando-se de sua própria infância e dos felizes dias de verão.” [1]

Essa história de Lewis Carroll nos ensina sobre como os contos são mantidos de geração em geração e sobre a importância que eles têm para criar memórias nas crianças. A irmã de Alice imagina que ela cresceria e manteria o mesmo coração de sua infância e que isso estimularia as outras crianças a sonharem também e, quem sabe, criarem suas próprias histórias para contar.

Independente do caráter ficcional do País das Maravilhas escrito por Carroll, a lição continua valendo na realidade. Os espaços sempre contam alguma história, seja ela individual, como algo que só uma pessoa pode contar, ou social, como parte de um grupo e como ele se manifesta no mundo; suas práticas, costumes ou inclinações, como trabalha, enfim, como age e se relaciona com as coisas ao redor. [2]

Isso nos faz pensar sobre uma outra história, com um final não tão feliz como o de Alice, mas que conta essa mesma narrativa de memórias da infância. Cidadão Kane é um filme de 1941, estrelado e dirigido por Orson Welles, que conta a história de Charles Foster Kane, um magnata da imprensa que, em meio ao drama e suspense criado nas cenas, diz uma última palavra em seu leito de morte: Rosebud.

O desenrolar da narrativa é a tentativa de encontrar a moça dona desse nome ou o que teria sido tão importante para Kane a ponto de ser a última palavra dita por ele em vida. Veja, isso não é spoiler mais, mas, se você quer ver o filme primeiro, esse aqui é o fim da leitura pra você. Foi um prazer ter você até aqui 🙂

Agora, se você decidiu continuar com a gente, queremos pensar juntos sobre o objeto que recebeu esse nome e porquê ele foi tão marcante para Kane. Rosebud foi o nome que ele deu para o sled board que usava para brincar na neve ao redor da casa de seus pais. Ele teve uma infância difícil, os pais brigavam e ele foi enviado para longe deles. Rosebud fica abandonado na neve e a vida de Kane segue em uma sequência de acontecimentos em escala, ele se torna muito rico e nunca retorna para o lugar onde cresceu.

Apesar de ter acumulado muitas riquezas e reunido muitos objetos, a última cena do filme, após a morte de Kane, é uma fotografia dele com sua mãe, ao lado do brinquedo que ocupou espaço no seu coração. Todo o acúmulo de Kane foi queimado no fim, inclusive o brinquedo, mas é interessante pensar sobre o que aconteceu na memória desse homem que teve praticamente tudo que desejou na vida.

Piaget explica pra gente que a personalidade da criança se realiza enquanto ela joga e que o jogo serve para completar o eu. Isso permite a assimilação da realidade e o “desabrochar” do eu. Curiosa a relação com o nome “Rosebud”, não é?!

“O jogo tem por função permitir ao indivíduo realizar seu eu, desdobrar sua personalidade, seguir momentaneamente a linha de seu maior interesse, nos casos em que não pode fazê-lo recorrendo às atividades sérias” (Psychologie de l’enfant, 8º edição, pág. 451). 

Brincar é algo natural para uma criança. Ela brinca porque é criança, isto é, porque os caracteres próprios de sua “dinâmica” impedem-na de fazer outra coisa a não ser brincar. [3] O ato de jogar alguma coisa permite com que as crianças eliminem suas tendências nocivas e as tornem aceitáveis, funcionando como uma “catarse” para elas.

“No jogo”, […] “o eu aspira ao seu desabrochar e o real só é tomado em consideração naquilo em que lhe serve de pretexto. Na atividade não lúdica, o real é considerado por si próprio” (Arch. Psychol., t. XXIV, pág. 363).

O filme é só mistério e não sabemos que emoções Kane guardava dentro de si. Mas pensar sobre o papel formador que os brinquedos têm na vida das crianças nos ajuda a observar com mais atenção os espaços e o modo como planejamos cada um deles. E você?! O que pensa sobre isso? Acompanhe a gente para reflexões como essa em nossas redes sociais. Esperamos você para a próxima leitura! =)

 

Referências:

[1] CARROL, Lewis. Alice’s Adventures in Wonderland. Amazon Classics, edição Kindle (tradução nossa).

[2] TEIXEIRA, Inês Filipa Florêncio. A cor como caracterizadora do espaço: a importância da cor nos jardins-de-infância. Lisboa: Universidades Lusíada, 2012.

[3] PIAGET, Jean. A formação do símbolo na criança: imitação, jogo e sonho, imagem e representação. tradução de Álvaro Cabral e Christiano Monteiro Oiticica. 4. ed. Rio de Janeiro: LTC, 2020.

20/02/2024 • 5 min

Os brinquedos e as memórias da infância

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Os brinquedos e as memórias da infância

“Por último, ela imaginou como sua irmãzinha iria, no futuro, ser uma mulher crescida; e como ela manteria, através de todos os anos, o simples e amável coração de sua infância; e como ela reuniria suas outras crianças, e faria os olhos deles brilharem e ansiarem com esse conto tão curioso, talvez até sonharem com o País das Maravilhas de muito tempo atrás; e como ela se sentiria com todas as suas simples tristezas, e encontraria prazer em todas as suas simples alegrias, lembrando-se de sua própria infância e dos felizes dias de verão.” [1]

Essa história de Lewis Carroll nos ensina sobre como os contos são mantidos de geração em geração e sobre a importância que eles têm para criar memórias nas crianças. A irmã de Alice imagina que ela cresceria e manteria o mesmo coração de sua infância e que isso estimularia as outras crianças a sonharem também e, quem sabe, criarem suas próprias histórias para contar.

Independente do caráter ficcional do País das Maravilhas escrito por Carroll, a lição continua valendo na realidade. Os espaços sempre contam alguma história, seja ela individual, como algo que só uma pessoa pode contar, ou social, como parte de um grupo e como ele se manifesta no mundo; suas práticas, costumes ou inclinações, como trabalha, enfim, como age e se relaciona com as coisas ao redor. [2]

Isso nos faz pensar sobre uma outra história, com um final não tão feliz como o de Alice, mas que conta essa mesma narrativa de memórias da infância. Cidadão Kane é um filme de 1941, estrelado e dirigido por Orson Welles, que conta a história de Charles Foster Kane, um magnata da imprensa que, em meio ao drama e suspense criado nas cenas, diz uma última palavra em seu leito de morte: Rosebud.

O desenrolar da narrativa é a tentativa de encontrar a moça dona desse nome ou o que teria sido tão importante para Kane a ponto de ser a última palavra dita por ele em vida. Veja, isso não é spoiler mais, mas, se você quer ver o filme primeiro, esse aqui é o fim da leitura pra você. Foi um prazer ter você até aqui 🙂

Agora, se você decidiu continuar com a gente, queremos pensar juntos sobre o objeto que recebeu esse nome e porquê ele foi tão marcante para Kane. Rosebud foi o nome que ele deu para o sled board que usava para brincar na neve ao redor da casa de seus pais. Ele teve uma infância difícil, os pais brigavam e ele foi enviado para longe deles. Rosebud fica abandonado na neve e a vida de Kane segue em uma sequência de acontecimentos em escala, ele se torna muito rico e nunca retorna para o lugar onde cresceu.

Apesar de ter acumulado muitas riquezas e reunido muitos objetos, a última cena do filme, após a morte de Kane, é uma fotografia dele com sua mãe, ao lado do brinquedo que ocupou espaço no seu coração. Todo o acúmulo de Kane foi queimado no fim, inclusive o brinquedo, mas é interessante pensar sobre o que aconteceu na memória desse homem que teve praticamente tudo que desejou na vida.

Piaget explica pra gente que a personalidade da criança se realiza enquanto ela joga e que o jogo serve para completar o eu. Isso permite a assimilação da realidade e o “desabrochar” do eu. Curiosa a relação com o nome “Rosebud”, não é?!

“O jogo tem por função permitir ao indivíduo realizar seu eu, desdobrar sua personalidade, seguir momentaneamente a linha de seu maior interesse, nos casos em que não pode fazê-lo recorrendo às atividades sérias” (Psychologie de l’enfant, 8º edição, pág. 451). 

Brincar é algo natural para uma criança. Ela brinca porque é criança, isto é, porque os caracteres próprios de sua “dinâmica” impedem-na de fazer outra coisa a não ser brincar. [3] O ato de jogar alguma coisa permite com que as crianças eliminem suas tendências nocivas e as tornem aceitáveis, funcionando como uma “catarse” para elas.

“No jogo”, […] “o eu aspira ao seu desabrochar e o real só é tomado em consideração naquilo em que lhe serve de pretexto. Na atividade não lúdica, o real é considerado por si próprio” (Arch. Psychol., t. XXIV, pág. 363).

O filme é só mistério e não sabemos que emoções Kane guardava dentro de si. Mas pensar sobre o papel formador que os brinquedos têm na vida das crianças nos ajuda a observar com mais atenção os espaços e o modo como planejamos cada um deles. E você?! O que pensa sobre isso? Acompanhe a gente para reflexões como essa em nossas redes sociais. Esperamos você para a próxima leitura! =)

 

Referências:

[1] CARROL, Lewis. Alice’s Adventures in Wonderland. Amazon Classics, edição Kindle (tradução nossa).

[2] TEIXEIRA, Inês Filipa Florêncio. A cor como caracterizadora do espaço: a importância da cor nos jardins-de-infância. Lisboa: Universidades Lusíada, 2012.

[3] PIAGET, Jean. A formação do símbolo na criança: imitação, jogo e sonho, imagem e representação. tradução de Álvaro Cabral e Christiano Monteiro Oiticica. 4. ed. Rio de Janeiro: LTC, 2020.

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